Tomada de decisão racionalmente limitada


Nos anos 60, Herbert Simon contribuiu de forma significativa para o estudo do trabalho dos gerentes. Segundo o mesmo, administrar é tomar decisões. Instituiu também o conceito de “homem administrativo”, que procura tomar as decisões satisfatórias, ao invés das decisões maximizadas. As decisões satisfatórias são aquelas que atendem aos requisitos mínimos desejados, ao contrário da teoria econômica tradicional, que pressupõe a maximização dos ganhos no processo decisório. As decisões são acompanhadas de riscos e incertezas, em que o administrador tem dificuldades de avaliar as probabilidades de acertos, além de listar todas as alternativas. Assim, Herbert Simon e March, em 1957, desenvolveram o conceito de racionalidade limitada, que exprime a incapacidade do tomador de decisões de dominar a complexidade do mundo, de compreender todas as informações, de dominar o tempo, como também o lado cognitivo. Estas características estão presentes no modelo comportamental, em que as informações são imperfeitas e incompletas, não se tem um conjunto completo de alternativas conhecidas e o tomador de decisão deve escolher a primeira alternativa minimamente aceitável.

Nesse texto, gostaria de mostrar que em organizações de todos os portes e setores (indústrias, comércio e serviço), as decisões, em sua maioria, são tomadas com base no modelo da racionalidade limitada. Para isso, vamos contextualizar algumas situações em que isso acontece em pequenas indústrias nas diversas áreas, como produção, vendas e marketing, recursos humanos, finanças, logística.

Mesmo em decisões programadas, aquelas tomadas com freqüência e com menor risco, se faz presente a racionalidade limitada, pois fatores como tempo, informações e pessoas podem influenciar na elaboração de todas as alternativas possíveis. Nas decisões não-programadas, que são mais complexas e não rotineiras, a racionalidade limitada é evidente.

Vamos considerar uma pequena empresa que fabrica utilidades plásticas para cozinha, como copos, pratos etc. As decisões de produção podem ser a escolha de fornecedores de matéria-prima, alterações na escala de produção, modificação nas máquinas, reestruturação do chão de fábrica, ampliação da linha de produção. Essas decisões não são tomadas com base em todas as alternativas conhecidas, bem como com todas as informações possíveis e também tem impacto de variáveis econômicas, políticas e ecológicas. Contratar novos fornecedores é uma decisão difícil, pois envolve qualidade da matéria-prima, preço, serviços de entrega, disponibilidade do recurso, e nesse caso, a fonte principal de matéria-prima do plástico é derivada de petróleo. Tem a alternativa de material reciclado, mas deve-se ter o cuidado na seleção desses materiais. Todos os outros exemplos também são racionalmente limitados, pois não é fácil e totalmente seguro reestruturar o chão de fábrica, tem que levar em conta fatores como máquinas, pessoas, dinheiro, espaço disponível, expedição e recebimento de mercadorias.

Com relação a vendas e marketing, lançar produtos, fazer comunicação de marketing, definir preços, escolher pontos de vendas, definir estratégias de relacionamento, não são decisões fáceis e requer cuidado para que os resultados sejam os mais satisfatórios possíveis. No caso de novos produtos, mesmo com pesquisas de mercado, estudos de comportamento de compra, a empresa não tem absoluta certeza que escolheu o produto certo, com todas as características como embalagem, cor, design. No setor de utilidades plásticas, o consumidor tem exigido produtos com qualidade e com formato funcional para ser conveniente e prático durante o uso. Assim, a empresa deve-se coletar o máximo de informações possíveis sobre o mercado para poder escolher o produto mais adequado, sabendo que há chances de fracasso nos lançamentos. Estabelecer preços também envolve alternativas desconhecidas, como mudanças na estrutura tributária do governo, o que pode prejudicar a formação de preços da empresa. Em 1986, com o plano cruzado, o governo congelou preços o que influenciou nas decisões das empresas.

Na área de recursos humanos, uma fábrica de utilidades plásticas necessitará de pessoas para as mais diversas funções, como operadores de máquina, auxiliar de escritório, como também ligadas a cargos de liderança. Mesmo em uma pequena empresa, recrutar e selecionar novos funcionários não são decisões altamente seguras, uma vez que a empresa corre riscos de contratar pessoas erradas e sem o perfil desejado. E como diminuir esses riscos? Hoje, até grandes empresas tem contratado pessoas por meio de indicação de funcionários antigos. É uma estratégia que visa diminuir as probabilidades de erros no processo. Podemos relacionar também como decisões racionalmente limitadas a promoção de funcionários, a delegação de tarefas e algumas demissões.

As decisões da área de finanças devem ser cuidadosamente analisadas, pois os riscos aumentam mais ainda, pois lida diretamente com o dinheiro da empresa. Assim, podemos relacionar aqui as decisões sobre investimento e financiamento, uma das mais difíceis. No que investir e quanto investir? São perguntas que estão relacionadas não somente com a área de finanças, mas com todas as outras. Nessa fábrica em questão, vamos ampliar a linha de produção com recursos próprios? Se sim, é um dinheiro que sairá do capital de giro para ser aplicado em bens. E quando será o retorno? E se for fazer um financiamento, em qual instituição bancária? Que informações analisar? Taxas de juros, tempo de pagamento, carência? São questionamentos essenciais para poder decidir e escolher a mais satisfatória possível, pois a empresa precisa urgentemente ampliar a produção e expandir a área de atuação.

Uma fábrica, independente de sua localização, precisa de uma logística eficiente e eficaz, pois ao mesmo tempo em que está longe, provavelmente, de alguns fornecedores, poderá também está distante do mercado consumidor. E quem vai unir essa cadeia? Será a logística. Ela é classificada como interna e externa e seja qual for as decisões, quase sempre são complexas, pois envolve fatores incontroláveis como estradas, clima, engarrafamento. E a decisão mais acertada possível é aquela que consegue disponibilizar o produto no momento e tempo certos e, sobretudo, com a qualidade do produto intacta. Aí a primeira decisão de qualquer empresa é: terceirizar ou não a logística externa? E a interna, como gerenciar o armazenamento, o estoque, o processamento de pedidos? Qual o impacto da logística nos preços, custos, satisfação do cliente, na qualidade do produto? O gestor da pequena empresa deve ter essa preocupação. Contratar uma transportadora envolve valor do frete, frota, prazo de entrega, qualidade do serviço. E tudo isso, mesmo em algum momento fazendo parte da rotina da empresa, é provável que haja mudanças que a mesma precisa considerar para escolher a decisão mais satisfatória.

Francisco Mirialdo Chaves Trigueiro

Administrador pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB – João Pessoa)

Professor da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT – Cuiabá)

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4 Respostas

  1. parabéns pelo Post. continuarei visitando este blog. se tiver Feeds, eu vou puxar este conteúdo para o meu blog. Abraço

  2. Adorei o post, pois mostra a importância da tomada de decisão nas principais áreas da empresa. Parabéns!

    • A tomada de decisão é a prática da administração e precisamos em todas as áreas da empresa.
      Obrigado

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